A autora, cientista social que atualmente está cursando especialização, onde desenvolve uma pesquisa no campo da antropologia, chama a atenção da oportunidade que surge para profissionais dessa área, mais especificamente aqueles que trabalham com antropologia do consumo. Concordo até certa parte do texto com o ponto de vista dela quando discorre sobre as características de um antropólogo e seu método etnográfico atuando nas redes sociais para entender o comportamento do consumidor e um pouco da relação das pessoas nas redes sociais. Mas julgo radical a opção por dizer que o post, reduzido e restrito a tal área de atuação do conhecimento, possa contribuir para a discussão sobre o perfil do profissional habilitado para trabalhar com mídias sociais e os contornos que o mercado está tomando. Trata-se de uma opinião particular, nada contra a antropologia, o consumo, as Ciências Sociais, tampouco a autora. O objetivo aqui é demonstrar que, para mim, faltou dizer muita coisa sobre as competências desse "novo profissional" e os rumos do mercado nessa área.
Para começar, por que chamá-lo de "novo profissional? Esse profissional já está no mercado faz tempo. Assistente ou analista de redes sociais, gerente de redes sociais, gerente de novas mídias, não importa como se chama. Grande parte desses cargos hoje é ocupada por jornalistas, publicitários, relações públicas, administradores e até engenheiros. O que esses profissionais fizeram que os levaram aos atuais cargos foi não parar de se atualizar, de se informar, buscar conhecimento, familiaridade com novas tecnologias. Primeiro em suas áreas, depois, estendendo aos poucos um conjunto dessas habilidades, somadas às de suas formações, a outras áreas das empresa. E assim, as companhias encontraram em seus quadros pessoas com as competências e qualidades necessárias para assumir tais cargos.
É fato, as empresas estão mesmo buscando profissionais de Comunicação principalmente para cargos na área de mídias sociais. Ou colocando em uma área tão estratégica como essa pessoas que são apenas usuários mais ativos nas redes sociais. Erros. Gravíssimos. Não é necessário restringir a formação desse profissional, afinal, outras áreas podem contribuir tanto quanto as áreas de Comunicação, depende mais do profissional do que exclusivamente de sua formação. E colocar numa posição de analista ou gerente de mídias sociais um usuário que lida bem com vários perfis nas redes é pior ainda. Essa pessoa pode saber tudo sobre as funcionalidades dos sites de relacionamento, mas nem sempre sabe com que estratégia se deve agir para dialogar com clientes. Conheço muitos casos assim. Verdadeiros desastres. Como mesmo disse a autora, os perfis e sites nas redes sociais de empresas que fazem isso servem única e exclusivamente para dizer "bom dia", "boa tarde", "boa noite" ou divulgar promoções. Interação? Diálogo? Ouvir? Longe disso...
É preciso levar em consideração que um profissional que lida com redes sociais deveria compreender bem o que se passa por trás daquelas conexões, "amizades", relações, conteúdos gerados por usuários. Seria importante conhecer as implicações das relações humanas com os computadores, dos computadores entre eles e dos indivíduos com os indivíduos através dos computadores. Assim, não basta que seja um antropólogo, um cientista social ou um relações públicas, é necessário que seja um pesquisador nato, um curioso, uma pessoa atenta, interessada em tecnologia e que consiga ligar o conhecimento científico às práticas de mercado. Conhecimento científico para entender as estruturas das redes, suas finalidades, conexões, afinal, redes sociais existem antes da Internet. E práticas de mercado porque, como disse a autora do texto, conhecimentos sobre atendimento a clientes e relacionamento são fundamentais nessa área.
Acredito que o profissional que está se formando para trabalhar com mídias sociais deve ter a perspectiva não apenas antropológica, pois essa é somente uma das abordagens para atuar nesse campo. Ele deve, sim, ter a visão do todo, ou seja, enxergar Administração, Comunicação, Linguagens, Matemática, Estatística, Sociologia e Psicologia em toda a estrutura das redes sociais, suas conexões e atores sociais que fazem parte do meio (leia-se como atores sociais representações ou construções identitárias - RECUERO, 2001 - ou seja, a representação on-line de cada indivíduo, que pode ser desde um perfil no Orkut, no Facebook, no Twitter ou um site, weblog, fotolog etc). A questão que se põe é a seguinte: onde encontrar um profissional com uma formação tão vasta e completa assim? As universidade estão longe de formar esses profissionais, de capacitar as pessoas para abarcar conhecimento em vez de teorias. Logo, surge aí uma lacuna no mercado: formar e capacitar pessoas para assumir cargos ligados às mídias sociais.
Quanto ao método para investigação nas redes sociais, ele não precisa ser necessariamente a etnografia, dominada pelos antropólogos. Já existe um tipo de observação para a Internet chamado "netnografia" (nethnography = net + ethnography). O neologismo foi originalmente cunhado por um grupo de pesquisadores/as norte-americanos/as, Bishop, Star, Neumann, Ignacio, Sandusky & Schatz, em 1995, para descrever um desafio metodológico no trato com esses materiais: preservar os detalhes ricos da observação e campo etnográfico usando o meio eletrônico para "seguir os atores" (BRAGA, 2008). Não vou entrar em detalhes sobre a netnografia, mas resumidamente seria uma maneira de observar as pessoas e seus rastros na internet, o que é possível pelo histórico dos atores que nunca é apagado nas redes, salvo raras exceções. Mas se você quiser mais detalhes sobre a técnica, leia o livro da professora Adriana Braga que indico no final como bibliografia.
Bem, eu poderia estender esse post numa longa discussão ainda, mas prefiro voltar aqui outras vezes e trocar ideias com vocês, ouvir suas opiniões antes de seguir. Ainda gostaria de falar mais da questão da interação mediada por computador, dos atores e elementos nas redes sociais, sobre o que faz o profissional que trabalha hoje com mídias sociais (que na minha opinião é bem diferente do que disse a autora daquele texto, quando afirmou que "basicamente fazem criação de conteúdo e monitoramento de redes sociais"), enfim. Tem muita oportunidade e discussão pela frente. Volto outras vezes pra seguirmos juntos.
BRAGA, Adriana. Personas materno-eletrônicas: feminilidade e interação no Blog Mothern. Porto Alegre: Sulina, 2008
RECUERO, Raquel. Redes Sociais na Internet. Porto Alegre: Sulina, 2008.